A pandemia mudou a forma de relacionar-se com o outro, de manter-se por perto e até de despedir-se. Em tempos de lidar com isolamentos, medos e tantas perdas, a Psicologia se mostra essencial na contenção dos danos emocionais que estão sendo gerados por esta crise sanitária inesperada. O cuidado psicológico, neste momento pandêmico, é uma das principais formas de compreender as transformações que estão acontecendo e de lidar da melhor maneira com elas.

Para a coordenadora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), Anna Karynne Melo, o psicólogo é um profissional de saúde mental fundamental nesse período de tantas dificuldades e instabilidades emocionais. “Podemos ajudar no enfrentamento da situação da pandemia e nos desdobramentos dela, como o isolamento, o medo da morte, a insegurança sobre o futuro, a ansiedade e o excesso de virtualidade. O acompanhamento vai ajudar a lidar com as perdas, sejam elas de pessoas, de empregos e de relações”, pontua.

Anna Karynne Melo explica que a pandemia trouxe vulnerabilidades para todos e os cuidados psicológicos devem ser levados em consideração pela sociedade, de maneira mais ampla e essencial. “Não podemos mais pensar o acompanhamento como algo para alguns, ou para aqueles que sofriam de algum transtorno. Temos que pensar para uma coletividade que vive a mesma situação ao mesmo tempo, mas em condições diferentes. O momento pandêmico confirmou a enorme desigualdade social, econômica e psicológica no mundo”.

A coordenadora do curso de Psicologia da Unifor afirma que muitas são as queixas de ansiedade, depressão, medos, solidão, pânico, comportamentos excessivos de limpeza e receio de contaminação, depois da disseminação mundial da Covid-19. Nos casos em que ocorreram mortes, ela ressalta que é preciso que o profissional trabalhe de forma cuidadosa com as pessoas que enfrentam a dor da perda.

“O luto é um processo que precisa ser elaborado de modo muito cuidadoso e o psicólogo pode ajudar na reorganização da pessoa que sofreu uma perda, pois a falta dos rituais de despedida, tão central e fundamental no luto, foram excluídos. Isso dificulta a superação. Temos muitas famílias que não viam seus parentes há muito tempo, pois estavam nos hospitais internados e intubados e, sequer, puderem comparecer aos seus velórios. Isso faz com que a dor seja mais intensa”, explica Anna Karynne Melo.

Até chegar à graduação, o psicólogo tem uma formação de 10 semestres que o habilita a tratar do cuidado em saúde mental em geral, inclusive na superação das perdas. “No curso de graduação em Psicologia da Unifor, iniciamos a aproximação da teoria da prática desde o início, mostrando as questões da sociedade e os dilemas contemporâneos. Formamos psicólogos habilitados para realizar diagnósticos e avaliações psicológicas, nas perspectivas individual e coletiva, em diferentes contextos e populações”, afirma a coordenadora.

PESQUISA

Grupos de pesquisa voltados para a temática pandêmica estão sendo desenvolvidos e fomentados pela Unifor. O primeiro edital para financiar estudos nesse sentido foi lançado em 2020. Já em 2021, um novo edital de financiamento de pesquisa foi lançado e deu início ao projeto Cuidar-Psi. A iniciativa avalia a eficácia da psicoterapia no contexto pandêmico, em especial para pessoas que passam por sofrimentos emocionais relacionados a este período.

Os grupos de escutas funcionam no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) desde março e oferecerão aos participantes acompanhamento de seis meses. “O objetivo do Cuidar-Psi é poder utilizar a psicoterapia como estratégia de cuidado, para as pessoas que estão em sofrimento e avaliar como ela pode diminuir esse sofrimento”, afirma o estudante do oitavo semestre de Psicologia da Unifor, Willian da Costa Mota, que faz parte do projeto sob a coordenação das professoras Virginia Moreira e Anna Karynne Melo e do professor Lucas Bloc, do Laboratório de Psicopatologia e Clínica Humanista Fenomenológica (Apheto).

O futuro profissional diz que a Psicologia mostra cada vez mais sua importância, diante do contexto de adoecimento trazido pela infecção global da Covid-19. “Estamos vendo em estudos científicos, nos noticiários e na própria clínica-escola o quanto as pessoas têm adoecido ou gravado seus adoecimentos, em razão da perda do contato com outras pessoas, seja pelo isolamento ou por morte. É cada vez mais importante que se busque acompanhamento psicológico. Um lugar em que eu possa levar minhas questões, desenvolver e solucionar meus dilemas, me conhecer, me tratar, cuidar dos meus sintomas. O psicólogo trabalha em tratamentos, mas também como ajuda nessa escuta acolhedora”, afirma o estudante Willian Mota.

FORMAÇÃO

O curso de Psicologia da Unifor tem o objetivo de formar psicólogos generalistas, pluralistas, competentes e éticos. O profissional graduado será capaz de atuar de forma preventiva e terapêutica. Desde o ingresso no curso, o aluno é inserido gradativamente na prática profissional a partir dos estágios básicos, no intuito de integrar a teoria vista ao longo dos sete primeiros semestres. Nos três semestres finais, o estudante escolhe duas das três ênfases oferecidas para aprofundamento: Processos de Gestão e Saúde do Trabalhador; Processos Educativos e Sociais; Processos Clínicos e Intervenções em Saúde.

O curso possui nota 4 (o índice máximo é de 5) em Conceito Preliminar de Curso (CPC) do Ministério da Educação (MEC). O CPC considera, além do desempenho dos estudantes, o corpo docente, a infraestrutura e os recursos didático-pedagógicos, entre outros itens. A Unifor disponibiliza, também, aos alunos de Psicologia, o único espaço de prática acadêmica do Ceará conveniado ao Sistema Único de Saúde (SUS). O Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) funciona numa área de 1050 m² no Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI).

[Fonte: Diário do Nordeste]

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